Ou eu encontro um caminho, ou eu o FAÇO...


"Nós morremos enquanto tu permaneces. A eternidade é tua. E nela seremos lembrados, não como pontos insignificantes deste mundo real, mas como folhas sadias que, em certo momento. Florescem nos ramos da Árvore da vida. Estas folhas caem da Árvore, mas não caem no esquecimento. Porque tu sempre te lembrarás dela" (Josiah Royce).

Escrito por Menina de Ouro às 17h57
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Depois de todos estes anos os momentos todos formam um mosaico desconexo de imagens acompanhadas por vozes, registros de acontecimentos que já não se acham tão organizados quanto deveriam estar em minha memória. Não sei dizer qual a verdadeira cronologia dessas lembranças, e a ordem na qual elas apareceram nesta homenagem é determinada mais pela carga emocional de cada uma delas que por qualquer outra coisa.

Nosso primeiro momento do qual me lembro foi o dia em que me presenteou com a bicicleta que eu tanto queria. Lembro-me bem o quanto compartilhava comigo a felicidade proporcionada pelo meu primeiro grande brinquedo, e só muito depois fui descobrir o quanto havia sido difícil para você comprá-la. Também me vejo naquela cama de hospital, você do meu lado. Eu havia acabado de ganhar meu primeiro caderno de desenho e algumas canetas, e me divertia tanto que nem pensava no quanto estava difícil respirar. Falando em hospitais, quantas idas e vindas, não? Lembra do dia em que precisou me levar correndo para o pronto socorro, durante a madrugada, porque eu queimei minha mão? Conversávamos sobre tudo, absolutamente tudo, éramos como duas grandes amigas.

E as manhãs em que me levava ao seu trabalho? Eu ficava ali tomando meu  guaraná sempre admirada em ver como todos vinham conversar com você, louca para poder desenhar contigo. Quando aos 6 anos eu fui a menina fascinada em andar de patins no parque  você estava lá segurando minha mão, e quando, já com 11 anos, chorei de soluçar porque machuquei o braço e você decidiu  segurar na minha mão e eu continuei patinando assim mesmo.... foi um dos dias mais felizes das nossas vidas. Lembra de como nos abraçamos naquela noite em que ganhei o primeiro lugar no campeonato da escola? o quanto pulamos e gritamos juntas?

Nada foi fácil na sua vida não é verdade? Eu te vejo, como se fosse ontem, sentada  no sofá da sala, cansada depois de um dia inteiro de trabalho, ensinando-me a fazer o dever da escola...

O vejo debruçada sobre uma apostila da faculdade, estudando mesmo depois de trabalhar o dia todo. Mas mesmo assim você sorria e brincava, e seus olhos brilhavam quando falava em algum novo projeto. Você lutava todo ano para que eu continuasse acreditando em Papai Noel. E não importava o quão complicado era o momento, você sempre achava um tempo para falar comigo.

Lembra a minha primeira grande desilusão amorosa? Você passou algumas noites acordadas comigo e, enquanto eu tentava envergonhada segurar os soluços e esconder as lágrimas, você me dizia que era daquele jeito mesmo, e que eu sobreviveria. Você me disse em uma  noite que eu havia perdido alguém, que deveria sempre pensar  com alegria porque é bom ver quem a gente ama feliz, mesmo distante. Eu achei tais palavras absurdas, mas hoje sei o quanto eram sábias.

Lembro-me de você brava com minha insistência em não aprender a tabuada, mas feliz me ensinando os nomes das capitais de todos os  países. Você sempre se orgulhou de saber todas, não é verdade? Eu também me orgulhava, e quando estudava era para tentar ser como você. Até hoje, quando ouço o “sua letra é muito bonita” respondo com “você precisava ver a da minha mãe..”. E quando eu fui fazer vestibular e trabalhar? Eu não tinha tempo de almoçar direito e você fez um acordo com o dono de um restaurante no meio do caminho para que eu pudesse comer lá todos os dias. Lembro-me da sua expressão de alegria incontida quando foi me buscar depois do trote na Universidade, eu toda pintada de azul, e sei o quanto tentou esconder de mim a decepção e a preocupação quando mudei o curso, mas mesmo assim você me apoiou.

Aliás, você sempre me apoiou, mesmo nas decisões mais malucas. Quando entrei em casa um dia, dizendo que iria comprar um apartamento e moraria sozinha, você foi comigo  mesmo sem concordar e me ajudou a escolher tudo! Deve ser difícil proteger alguém e mesmo assim deixar que a vida ensine algumas boas lições para essa pessoa, não? Tínhamos temperamentos difíceis e brigamos bastante. Você me deu broncas que até hoje acho  injustas, mas outras tantas que ajudaram a moldar o meu caráter… Já te culpei por erros meus, e sinceramente espero que um dia me perdoe por isso. Eu  era imatura e fraca demais para suportar sozinha  meus fracassos e orgulhosa demais para dizer “errei e preciso da sua ajuda, minha mãe”. Coisa de uma menina crescida apenas na superfície, que ainda ia e vai aprender muito sobre a vida. O que sei é que se eu puder ser para os meus filhos  5% de tudo que você foi para mim, serei a melhor mãe do mundo. Não tenha dúvida que meus filhos ouvirão muitas histórias sobre a vovó .  Aliás, rezo todos os dias para que meus filhos possam ouvir muitas histórias suas ainda...

Eu sei o quanto tudo é difícil, ser adulto e ter responsabilidades é sempre complicado, e não é fácil lidar com o tempo que passa aniquilando alguns de nossos mais valiosos sonhos. Mas não desanimarei, minha mãe, nem por um momento, pois sei que  ainda teremos um mundo para conquistar. Juntas, sempre, mesmo que não seja mais fisicamente... 

 

 



Escrito por Menina de Ouro às 16h45
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